Acho que era esse o nome de uma comunidade daquele famoso "site de relacionamentos", na qual me inscrevi apenas por sua irreverencia tipicamente grouchomarxista, até que encontrei este petardo ensaístico que deu um sentido teórico-político bem criativo e instigante para a foto ao lado.
O garoto é bom, fui buscar algo sobre ele a partir de um texto que tá fazendo minha cabeça aqui, no qual ele colabora com outros amigos na sistematização de uma polêmica com Walter Mignolo e suas reflexões sobre colonialidade, descolonização, giros epistêmicos e otras cositas más...
Então, levantando outros textos dele (Pablo Turrión), caí no blog, já incorporado à lista de favoritos e que certamente vale uma conferida. O cara parte do embate entre Espanha e Estados Unidos na final das olimpíadas para construir uma metáfora teórica à la Zizek sobre a luta de classes no contexto do sistema-mundo, estabelecendo uma analogia entre a "roja" (seleção espanhola de basquete) e a perspectiva de organização revolucionária num contexto adverso. Daí a constatação de que Lenin tenha sido o MVP dessa final.
Aliás, deve ser meio difícil encontrar muitos loucos que mantenham interesses comuns quanto aos debates sobre sistema-mundo, luta de classes, colonialidade e basquete e, principalmente, que se aventure a juntar tudo isso numa reflexão. Só isso já vale a referência. Mas, se os leitores incautos que caíram aqui não circulam por todas essas áreas ao mesmo tempo e a dica do texto parece algo por demais específico, fica a salada de menções para que se tire o que lhe aprouver. Afinal, esse post já bate um recorde de maior número de referências num espaço mais exíguo. Só espero que renda pelo menos uma partidinha com o mano Pablo em alguma quebrada dessas...
Desde os tempos em que mergulhei no universo de The Doors tenho alguma curiosidade por tumbas históricas.
Não se pode dizer que é uma mania, mas digamos que o universo relacionado à morte é sempre instigante. Para o olhar de historiador, por exemplo, é curioso pensar tanto no contexto social de determinadas épocas que é em boa medida refletido nos cemitérios, como colecionar histórias pitorescas nas quais vultos históricos continuam influenciando o presente (vide os casos Lenin ou Evita Perón)
Pois passa que um pouco por coincidência, um roteiro obrigatória nessa viagem acabaram sendo os cemitérios. Em Buenos Aires porque estavamos alojados no bairro de Recoleta, onde o cemitério é um ponto turístico e em Lima porque era obrigação da legião mariateguista ali reunida fazer uma romaria ao mausoléu do Amauta.
Recoleta é um lugar bem louco, pois trata-se de um bairro nobre, com o cemitério encravado no meio da região de bares e agitação noturna. Estivemos rodando entre as ruelas mórbidas por algumas horas, entre o fascínio e o enjôo que o ambiente provoca. Algumas são realmente impressionantes, parecem capelas luxuosas ou mini-catedrais. Vê-se sempre o esforço em expressar ali a imponência da família, sendo um lugar reservado às de pendor aristocrático, pois não há sequer uma parede daquelas com lápides empilhadas, só mausoléus. Assim há alguns mais “simples” e outros de mármore do chão ao teto. É claro que também se podia ver casos de famílias falidas, com os espaços totalmente abandonados, em ruínas. Pegamos um trecho da visita guiada por um velho ultra-conservador, que como todas visitas guiadas, é meio chata de ficar acompanhando, mas nesse caso foi interessante porque chamava atenção para alguns detalhes que nos passariam despercebidos. Como o da escultura feita de um único bloco de mármore de uma menina de uns 9 anos que morreu de tubérculos e aparece sendo levada por um anjo (ou anja?). Entre os famosos, encontramos Evita Perón, Sarmiento e alguns “herói nacionais” cheios de placas comemorativas.
Em Lima, o cemitério fica numa zona mais periférica, parece que nos limites da Lima colonial. Recentemente foi divido em 3 partes, se entendi bem. Uma é a mais histórica, com mausoléus e as construções mais imponentes. Ganhou status de museu e só pode ser visitada com autorização de um determinado órgão. Mas desenrolamos com um rapaz que fazia a guarda local e ele deixou irmos apenas à tumba de Mariátegui. É uma pedra, com algumas insrições, coisa bem simples. Ficamos ali alguns minutos e fomos visitar o pai de um amigo que nos acompanhava, um velho militante do PC em Arequipa (não o amigo, seu pai). Está na outra parte, que é toda mais simples, embora também tenha covas de tempos coloniais pelo que foi mencionado. O que seria a terceira parte, parece que a mais popular, está separada por uma avenida. Saímos dali e passando novamente pelo túmulo de Mariátegui, ainda vi um grupo grande de jovens visitando-o. Dali fomos atrás da procissão que não encontramos e acabamos trocando pela perdição da última noite em Lima.
O saldo dessas incursões foi positivo, pois além dos sustos e sobressaltos, saímos com um olhar peculiar das cidades e mais algumas histórias cabulosas de cemitérios.
Como a de um estudante argentino que, vivendo em Londres, saía regularmente do trabalho e sentava-se com uma caneca de café ao lado da tumba de Marx pra pensar na vida ou sabe-se lá no que mais. Ou a do próprio Mariátegui, conhecida de todos ali presentes, que em seus tempos de boêmia juvenil juntou-se com uns amigos a tocar a marcha fúnebre para a dança erótica da bailarina russa Norka Rouskaia, uma maneira bem heterodoxa de comemorar a revolução, que escandalizou a católica aristocracia limenha.
Quem quiser, pode preparar aqui o seu próximo roteiro mórbido, podendo inclusive partir de trajetos mais próximos.