viernes, 2 de enero de 2009

Tentar “ensinar uma lição ao Hamas” é fundamentalmente errado, por Tom Segev


Haaretz (em inglês), creio que o principal jornal israelense, é uma fonte importante para acompanhar o massacre do povo palestino. Como uma linha que se pode classificar de algo como "liberal humanista", naturalmente reproduz muitas posturas de apoio à ação do exército israelense. Mas também traz diversos artigos críticos e notícias que demonstram as contradições e interesses que movimentam a máquina de guerra sionista.


Tom Segev é um historiador israelense, daquela corrente que disseca os mitos fundadores do Estado de Israel (que se fundamentam nos dogmas do judaísmo, não nos esqueçamos). Aqui, uma entrevista dele à revista época em outro contexto, da qual destaco dois trechos.


Sobre a condição a que está submetido o povo palestino e suas motivações:


"O grande erro que a maioria comete é não perceber que os palestinos não ganharam nada com os acordos de Oslo. Para muitos deles, a situação ficou pior. Surgiram novos bloqueios, tornando muito mais difícil entrar em Israel e conseguir trabalho. Em segundo lugar, os palestinos foram deixados sob uma administração corrupta e ineficiente, chefiada por Arafat. Os assentamentos foram expandidos, mais terra foi tirada dos palestinos. Ficou fácil para eles se desesperarem, e é por isso que surgem tantos terroristas suicidas. Eles não vêem futuro."


Sobre a possibilidade de uma normalização da sociedade israelense:


"Estávamos a caminho disso. Eu estava muito otimista com a perspectiva de Israel se tornar uma democracia multicultural. Estávamos no rumo de um período pós-sionista, não-ideológico de nosso desenvolvimento. A violência dos últimos 19 meses nos empurrou para trás, para um tipo de familiaridade tribal, o sentimento de ser um povo sitiado, cercado por inimigos."






El Roto
. Publicada no El País - 30 - 12- 2008,

Reproduzida em O Caderno de Saramago


Agora sim, o texto publicado recentemente em Haaretz:

____________________________________________________________

Tradução para o português retirada de

http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=48957


Sábado pela manhã, o Channel 1 da televisão israelense fez uma misturada interessante: os correspondentes falavam de Sderot e Ashkelon, mas as imagens que se viam na tela eram imagens da Faixa de Gaza. Provavelmente sem querer, acabaram por veicular a mensagem correta: uma criança em Sderot é igual a uma criança em Gaza, e seja quem for que a fira ou mate comete sempre o mesmo crime.

O assalto a Gaza exige sempre, em primeiro lugar, condenação moral – mas merece também avaliação histórica. Tanto as justificativas para o ataque a Gaza quanto os alvos escolhidos são replay das mesmas idéias que repetidamente se têm mostrado erradas, guerra após guerra. Pois Israel continua a tirá-las da cartola, sempre, guerra após guerra.


Israel está matando palestinos, para "dar-lhes uma lição". É idéia que acompanha a empreitada sionista desde o primeiro dia: 'nós' representaríamos o progresso e as luzes, a racionalidade e a moralidade de escol; os árabes seriam gente primitiva, violenta, escória que teria de ser educada e receber lições da 'nossa' sabedoria – mediante, claro, táticas de cenoura-e-chicote, como se faz para fazer andar o burro.


O bombardeio de Gaza visa também, supostamente, a "liquidar o regime do Hamás", outra idéia que acompanha o movimento sionista desde o primeiro dia: a idéia de que seria possível impor uma liderança "moderada" na Palestina, uma liderança que esqueceria todas suas aspirações nacionais.


Como corolário, Israel também sempre acreditou que causar sofrimento aos palestinos os levaria a levantar-se contra seus líderes nacionais. Isso já foi tentado várias vezes e fracassou sempre que foi tentado.


Todas as guerras de Israel basearam-se também em outra pressuposição sionista, que acompanha Israel desde o início: que em todos os casos, Israel só se defende. "Meio milhão de israelenses estão sob fogo", urrava a manchete da edição de domingo do Yedioth Ahronoth – como se a Faixa de Gaza não enfrentasse bloqueio e sítio terríveis, muito longos, que já destruíram as chances de várias gerações de palestinos viverem vida que valha a pena viver.


É reconhecidamente impossível viver sob fogo diário, ainda que não haja lugar no mundo que viva em situação de terror-zero. Mas o Hamás não é a organização terrorista que aprisionou toda a população de Gaza: é um movimento religioso nacionalista, e a maioria dos habitantes de Gaza crêem nesse ideário. Pode-se, é claro, discordar, e, às vésperas de eleições para o Parlamento, esse ataque pode, até, levar a algum tipo de acordo de cessar-fogo. Mas há outra verdade histórica que não se pode esquecer: desde o primeiro momento da presença dos sionistas em Israel, nenhuma operação militar jamais fez avançar qualquer diálogo com os palestinenses.


O mais perigoso, dentre todos os clichês que Israel repete, é o clichê que diz que não há parceiros para discutir a paz. Isso jamais foi verdade. Há muitos meios pelos quais conversar com o Hamás, e Israel tem algo a oferecer que interessa a eles. Pôr fim ao bloqueio de Gaza e permitir livre movimentação entre Gaza e a Cisjordânia tornaria outra vez possível a vida na Faixa.


Ao mesmo tempo, vale a pena tirar da gaveta os velhos planos preparados depois da Guerra dos Seis Dias, que previa que milhares de famílias fossem realocadas, da Faixa de Gaza para a Cisjordânia. Aqueles planos jamais foram implementados, porque se decidiu que a Cisjordânia seria usada pelos colonos judeus. Esse foi o mais estúpido de todos os erros.


Fonte: Haaretz, Telavive, 29/12/2008, Traduzido por Caia Fittipaldi.

(http://www.haaretz.com/hasen/spages/1050706.html)

Se nos resta apenas gritar...

O futuro é uma câmara de gás
Fred 04

Depois de mais um período de silêncio prolongado, o que é natural pela falta de tempo ou de motivação cotidiana e sem maior importância quando ainda estamos nessa fase de monólogo, as explosões que reverberam pelo mundo tornam inadmissível o silêncio. E, se no momento que vivemos as possibilidades de ação e as perspectivas de um mundo melhor encontram-se bloqueadas, que ao menos levantemos a voz de indignação, ainda que não nos deem ouvidos ao que nos chamem de loucos, terroristas ou intolerantes...

Retomo as publicações no blog neste início de ano sem mensagenzinha babaca de prosperidade e paz. Esta ano não vai ser melhor que aquele que passou. Pois as nuvens se acumulam no horizonte e as tempestades estão apenas começando; os avisos de incêndio foram dados e eu me recuso a chafurdar pateticamente em frente à televisão.

Então, que este pequeno espaço sustente ao menos um grito (ou um gemido) de rebeldia e indignação ante a bestialidade e a perpetuação cotidiana do genocídio. Não me iludo que com isso esteja "fazendo a minha parte", não se trata de aliviar minha consciência, sei que isso não diminuirá o sentimento de impotência que impera. Apenas faço.




viernes, 14 de noviembre de 2008

Lenin, de três!

Acho que era esse o nome de uma comunidade daquele famoso "site de relacionamentos", na qual me inscrevi apenas por sua irreverencia tipicamente grouchomarxista, até que encontrei este petardo ensaístico que deu um sentido teórico-político bem criativo e instigante para a foto ao lado.

O garoto é bom, fui buscar algo sobre ele a partir de um texto que tá fazendo minha cabeça aqui, no qual ele colabora com outros amigos na sistematização de uma polêmica com Walter Mignolo e suas reflexões sobre colonialidade, descolonização, giros epistêmicos e otras cositas más...

Então, levantando outros textos dele (Pablo Turrión), caí no blog, já incorporado à lista de favoritos e que certamente vale uma conferida. O cara parte do embate entre Espanha e Estados Unidos na final das olimpíadas para construir uma metáfora teórica à la Zizek sobre a luta de classes no contexto do sistema-mundo, estabelecendo uma analogia entre a "roja" (seleção espanhola de basquete) e a perspectiva de organização revolucionária num contexto adverso. Daí a constatação de que Lenin tenha sido o MVP dessa final.

Aliás, deve ser meio difícil encontrar muitos loucos que mantenham interesses comuns quanto aos debates sobre sistema-mundo, luta de classes, colonialidade e basquete e, principalmente, que se aventure a juntar tudo isso numa reflexão. Só isso já vale a referência. Mas, se os leitores incautos que caíram aqui não circulam por todas essas áreas ao mesmo tempo e a dica do texto parece algo por demais específico, fica a salada de menções para que se tire o que lhe aprouver. Afinal, esse post já bate um recorde de maior número de referências num espaço mais exíguo. Só espero que renda pelo menos uma partidinha com o mano Pablo em alguma quebrada dessas...







Marx, nosso ideólogo...


jueves, 6 de noviembre de 2008

Triunfos de Caliban

Depois de tanto texto, alguns registros em imagens de "momentos Caliban". Dispensam maiores comentários:

1) Zapata e Villa entram na cidade do México (com mais de 60 mil camponeses e peões). Dezembro, 1914.



2) Banquete da Convenção Revolucionária. Outubro ou Dezembro, 1914.



Mais vídeos da revolução mexicana aqui.

3) Barbudos entram em Havana. Janeiro, 1959.



4) "CASTRO TRIUNFA: a multidão em Havana comemora o sucesso da revolução" Universal International News, 5 de Janeiro de 1959.



"Um novo líder entra em cena: Fidel Castro. Em muitos sentidos, um desconhecido, mas que certamente será predominante na nova era de Cuba, que acaba de começar."


5) Sandinistas entram em Managua. 19 e 20 de julho de 1979. O povo festeja, as prisões são abertas, as câmaras de tortura destruídas...

martes, 4 de noviembre de 2008

Notas sobre Caliban

Retamar, Roberto Fernandez. Todo Caliban. La Habana: Fondo Cultural del ALBA, 2006.

Obs: Seguem alguns comentários ao texto indicado abaixo. São trechos de um fichamento, que obviamente não coloco inteiro aqui, pois ficaria intragável... A edição que utilizo é diferente da que está disponível on-line.

______________________________________________
Parte 1: Una pregunta

[Colocação da questão]

O poeta cubano constrói neste brilhante ensaio[1] o conceito-metáfora “calibanesco” (Caliban – Canibal) como eixo de um programa descolonizador. O texto se destaca além da sua força teórico-política de um bom manifesto, pela riqueza de referências a fontes de cultura latino-americanas. Pensamento sobre América desde Nuestra América.

Sua reflexão parte de uma indagação feita por um jornalista europeu quanto à existência de uma cultura latino-americana.[2] Para Retamar, esse questionamento revelava uma raiz da polêmica em torno ao processo cubano que dividia naquele momento a intelectualidade européia com “visível nostalgia colonialista” e os representantes mais importantes dos escritores e artistas latino-americanos que se insurgiam contra “as formas abertas ou veladas de colonização cultural e política”. Perguntar sobre a existência de uma cultura era como questionar “nuestra própia existencia, nuestra realidad humana misma, y portanto tomar partido en favor de nuestra irremediable condición colonial, ya que se sospecha que no seríamos sino eco desfigurado de lo que sucede en otra parte”. (p.11)

Pode-se dizer que a postura criticada, longe de ser uma expressão conjuntural, revela uma maneira recorrente e mesmo predominante de ler a nossa condição, presente à esquerda e à direita. RFR vê aí um fato comum aos países que emergem do colonialismo, mas que se expressa com uma crueza singular em “nuestra América mestiza”.

Problema da identidade. Mestiçagem é acidental e marginal em África e Ásia, mas é a essência e a linha central para nós, “nossa América mestiça”. Percepção de Martí e Bolívar. [Ver Darcy Ribeiro]. José Vasconcelos “confuso, mas cheio de intuições” assinala aí o surgimento de uma raça cósmica.

Confusão à raiz desse fato. Seria deveras inusitado confundir um vietnamita com um italiano; um coreano com um inglês, como dificilmente ocorreria a alguém questionar sua existência. Por outro lado, há uma tendência a tomar os latino-americanos como aprendizes, como rascunhos ou como “desvalidas cópias dos europeus [...] assim como a nossa cultura toda se toma como uma aprendizagem, um rascunho ou uma cópia da cultura burguesa européia”. (p. 14) [Ver tipologia de Huntington para “civilizações” atuais, América Latina aparece como sub-civilização]. Língua é um elemento que aumenta a confusão, pois nosso idioma principal continua sendo o do colonizador. Nossa contestação ao colonizador se dá na língua dele! “de que otra manera puedo hacerlo, sino en una de sus lenguas, que es ya también nuestra lengua, y con tantos de sus instrumentos conceptuales, que también son ya nuestros instrumentos conceptuales?”. Essa condição paradóxica, aparece no “grito extraordinário” de Shakespeare, com o deforme Caliban que, despojado por Próspero de sua ilha, escravizado e educado na língua do conquistador, lhe desfia:

You taught me language; and my profit on’t

Is, I know to curse;

the red plague rid you

For learning me your language!

[A língua me ensinastes; e meu ganho nisso

É saber maldizer;

Que a praga vermelha caia sobre vós

Por me fazeres aprender vossa linguagem!]


(William Shakespeare A tempestade, ato I, cena 2)

Parte 2: Para la historia de Caliban

[O conceito-metáfora]

Etimologia bastante significativa (p.15-19): Caliban é anagrama de “canibal”, cuja pronúncia é derivada de “caribe”, povo que deu origem à toponímia e se caracterizou pela resistência heróica à invasão. Sentido pejorativo da palavra canibal contrasta com relato do selvagem dócil (arauco/taíno), que inspira a Utopia de Morus. Ambas imagens portanto surgem como “opções do arsenal ideológico da enérgica burguesia nascente”, à direita e esquerda. (p. 17-18) Curioso é que Montaigne, um utópico, é a provável fonte para o deformado Caliban. “Shakespeare verifica, pues, que ambas maneras de considerar lo americano, lejos de ser opuestas, eran perfectamente conciliables”. (p. 20)

Revisão de algumas leituras da obra.

George Lamming, de Barbados, é o primeiro escritor latinoamericano (e caribenho) a assumir a identificação direta com Caliban (1960) e a partir de então, ganha força essa leitura da obra de Shakespeare. (p. 29)

1969: Aimé Césaire (Martinica), Edward Kamau Brathwaite (Barbados) RFRetamar, três antilhanos, nas três línguas coloniais do Caribe, coincidem em reivindicar Caliban. (p. 30-31)

Parte 3: Nuestro Símbolo

[Reivindicação de Caliban]

Nuestro símbolo no es pues Ariel, como pensó Rodó, sino Caliban. Esto es algo que vemos con particular nitidez los mestizos que habitamos estas mismas islas donde vivió Caliban: Próspero invadió las islas, mató a nuestros ancestros, esclavizó a Caliban y le enseñó su idioma para entenderse con él: ¿Qué otra cosa puede hacer Caliban sino utilizar ese mismo idioma para maldecir, para desear que caiga sobre él la «roja plaga»? No conozco otra metáfora más acertada de nuestra situación cultural, de nuestra realidad. De Tupac Amaru, [... a] Roque Dalton, Guillermo Bonfil, Glauber Rocha o Leo Brouwer, ¿qué es nuestra historia, qué es nuestra cultura, sino la historia, sino la cultura de Caliban? (p. 31-32)

Reconhece importância e influência de Rodó, não obstante imprecisão de seu Ariel. (p. 33-36)

Problema do nome (latino, ibero, indo-americano), tensão identitária ainda hoje irresoluta.

“Asumir nuestra condición de Caliban implica repensar nuestra historia desde el otro lado, desde el otro protagonista”. (37) E a polarização em A Tempestade não é entre Ariel (intelectual da ilha colonizado) e Caliban (“rude e inconquistável dono da ilha”), mas entre Caliban [bárbaro] e Próspero [colonizador].

Parte 4: Otra vez Martí

Retamar faz uma defesa apaixonada de José Martí como precursor dessa “concepção de nossa cultura”. Situar essa defesa na construção da identidade entre a revolução e o projeto martiano de libertação nacional. Fidel considera Martí o mentor intelectual do assalto ao Moncada.

RFR recorda a sorte editorial de Martí, para registrar que “es ahora, después del triunfo de la Revolución Cubana, y gracias a ella, que Martí está siendo ‘redescubierto y revalorado’”. (39)

Inspiração em Martí transcende tradição cultural cubana, fundamenta uma cultura latino-americana de libertação (descolonização): “Para ser consecuentes con nuestra actitud anticolonialista, tenemos que volvernos efectivamente a los hombre y mujeres nuestros que en su conducta y en su pensamiento han encarnado e iluminado esta actitud. Y en este sentido, ningún ejemplo más útil que el de Martí.” (p. 40-41)

Configura uma visão “calibanesca” de nossa cultura., reivindicando o autóctone. (p. 45) Também expressa dificuldade de nomear, “definir conceitualmente” o continente, chegando enfim à “modesta fórmula descritiva” – Nossa América – que abarca as contraditórias e conflitivas comunidades que ocupam o território do Rio Bravo à Patagônia, distinguindo-nos da “América européia”. Tal concepção, dispersa por sua obra aparece sintetizada no artigo-manifesto que leva esse nome com que batiza o continente.

Prevalência da realidade americana sobre importação de teorias, diz Martí: “El mestizo autêntico ha vencido al criollo exótico”. (p.45)

RFR destaca em Martí todo um programa anticolonialista, não apenas contra o sistema de dominação remanescente em Cuba no final do século XIX, mas contra o colonialismo cultural – que não é dissociado de sua dimensão política – reproduzido pelas elites criollas pós-independências. Para usar os termos atuais do debate, trata-se de um projeto antagônico à colonialidade do poder, que se torna a base do “nacional-popular” construído pela revolução.

Parte 5: Vida verdadera de un dilema falso

[José Martí x Domingo Faustino Sarmiento]

Nesta parte, RFR analiza comparativamente o intelectual cubano e o argentino, rechaçando energicamente as leituras que os colocam em pé de igualdade, como construtores da identidade nacional. O fundamental de sua crítica: Martí representa a matriz de um projeto “nacional-popular”, mestiço e autóctone; Sarmiento é o esforço de civilização europeizante de uma proto-burguesia que tenta se firmar por cima das classes populares (ver citas abaixo, na parte referente a Borges).

Dialética do elogio da barbárie (naturalmente fadado a ser incompreendido):

“Martí, al echarse del lado de la ‘barbarie’

prefigura a Fanon y a nuestra revolucion”

Destaca-se aí aguda observação de Martí sobre como a situação colonial reduz a condição humana (antecipação de Frantz Fanon {Francês/Inglês}):

“¡De toda aquella grandeza apenas quedan en el museo unos cuantos vasos de oro, unas piedras como yugo, de obsidiana pulida, y uno que otro anillo labrado! Tenochtitlán no existe. No existe Tulan, la ciudad de la gran feria. No existe Texcuco, el pueblo de los palacios. Los indios de ahora, al pasar por delante de las ruinas, bajan la cabeza, mueven los labios como si dijesen algo, y mientras las ruinas no les quedan detrás, no se ponen el sombrero.” (50)

Parte 6: Del mundo libre

[Contra Borges]

Nessa parte, Retamar faz um ácido balanço crítico do escritos argentino. Esse é um dos pontos posteriormente matizados pelo autor, que aqui aparece com a virulência dos debates revolucionários e posteriormente retifica sua postura no que se refere ao reconhecimento da obra de Borges.

Está claro que sua crítica a Borges é uma extensão da que faz a Sarmiento, como protótipos de Ariel prestando seus tributos ininterruptos ao colonizador.

Patéticamente fiel a su clase, iba a ser otro el Borges que se conocería, que se difundiría, que sabría de la gloria oficial y de los casi incontables premios, algunos de los cuales, de puro desconocidos, más bien parecen premiados por él. El Borges sobre el cual se habla, y al cual voy a dedicar unas líneas, es el que hace eco al grotesco «pertenecemos al Imperio Romano» de Sarmiento, con esta declaración no de 1926 sino de 1955: «creo que nuestra tradición es Europa». (p. 55)

Os exemplos eleitos por RFR, bem como sua abordagem, sem dúvida estão estreitamente relacionados com o debate do processo cubano.

El diálogo al que asistimos entre Sarmiento y Martí era, sobre todo, un enfrentamiento clasista.

Independientemente de su origen, Sarmiento es el implacable ideólogo de una burguesía argentina que intenta trasladar los esquemas de burguesias metropolitanas, concretamente la estadunidense, a su país. (p. 56)

Martí – “porta-voz consciente das classes exploradas” – continuado por Mella y Vallejo, Fidel y Che.

Sarmiento – “o mais ativo, o mais consequente dos ideólogos burgueses do continente no século XIX” (56)

A pesar de su complejidad, finalmente lo heredan los representantes de la viceburguesía argentina, derrotada por añadidura. Pues aquel sueño de desarrollo burgués que concibió Sarmiento, ni siquiera era realizable: no había desarrollo para una eventual burguesía argentina. La América Latina había llegado tarde a esa fiesta. (57)

Aí está a relação direta Sarmiento – Borges:

A esta luz se ve con más claridad el vínculo entre Sarmiento, cuyo nombre está enlazado a vastos proyectos pedagógicos, a espacios inmensos, a vías férreas, a barcos, y Borges, cuya mención evoca espejos que repiten la misma desdichada imagen, laberintos sin solución, una triste biblioteca a oscuras. Por lo demás, si se le reconoce americanidad a Sarmiento —lo que es evidente, y no significa que represente el polo positivo de esa americanidad—, nunca he podido entender por qué se le niega a Borges: Borges es un típico escritor colonial, representante entre nosotros de una clase ya sin fuerza, cuyo acto de escritura —como él sabe bien, pues es de una endiablada inteligencia— se parece más a un acto de lectura. Borges no es un escritor europeo: no hay ningún escritor europeo como Borges; pero hay muchos escritores europeos, desde Islandia hasta el expresionismo alemán, que Borges ha leído, barajado, confrontado. Los escritores europeos pertenecen a tradiciones muy concretas y provincianas, llegándose al caso de un Péguy, quien se jactaba de no haber leído más que autores franceses. Fuera de algunos profesores de filología que reciben un salario por ello, no hay más que un tipo de ser humano que conozca de veras, en su conjunto, la literatura europea: el colonial. Sólo en caso de demencia puede un escritor argentino culto jactarse de no haber leído más que autores argentinos —o escritores de lengua española—. Y Borges no es un demente. Es, por el contrario, un hombre muy lúcido, un hombre que ejemplifica la idea martiana de que la inteligencia es sólo una parte del hombre, y no la mejor. (p. 58)


Segue-se polêmica com interpretação do romance latino-americano por Carlos Fuentes, cuja virada direitista data da 2ª Declaração de Havana. (p. 60-70)


Parte 7: El porvenir amenzado

[Uma cultura latino-americana universal]

RFR contrapõe o compromisso de Ariel com Próspero:

En todos estos casos, con ligeras variantes, es claro que la América Latina no existe sino, a lo más, como una resistencia que es menester vencer para implantar sobre ella la verdadera cultura... (p. 70)

À emergência de uma “genuína cultura”, gestada pelo povo mestiço através de Bolívar, Artigas, Martí, Zapata, Recabarren, Jesús Menendez...

A essa cultura, RFR reivindica com Alfonso Reyes um estatuto universal. (p. 72) De 1780 a 1970 (passando, é claro por 1959), indica as datas de construção dessa cultura:

Fechas así, para una mirada superficial, podría parecer que no tienen relación muy directa con nuestra cultura. Y en realidad es todo lo contrario: nuestra cultura es —y sólo puede ser— hija de la revolución, de nuestro multisecular rechazo a todos los colonialismos; nuestra cultura, al igual que toda cultura, requiere como primera condición nuestra propia existencia. (73)

Parte 8: ¿Y Ariel, ahora?

[O dilema dos intelectuais latino-americanos]

RFR encerra um ensaio com uma reflexão não apenas sobre os intelectuais e a revolução, mas sobre a questão da cultura no processo de transição revolucionária, reivindicando aí um caminho independente dos modelos estabelecidos.

Para comprender mejor tanto las metas como los caracteres específicos de nuestra transformación cultural en marcha, es útil confrontarla con procesos similares en otros países socialistas. El hacer que todo un pueblo que vivió explotado y analfabeto acceda a los más altos niveles del saber y de la creación, es uno de los pasos más hermosos de una revolucion. (83)

Conclui com a reivindicação que faz Che, análoga à de Martí, para que a “universidade européia” ceda o passo à “universidade americana”, ou seja, que Ariel “solicite a Caliban o privilégio de um posto em suas filas revoltas e gloriosas.” (p. 85)


[1] “As passagens da filosofia à sociologia, da ciência política à história, da antropologia à comunicação, da sociologia à literatura, não são casos de excepcionalidade, mas constituem quase que uma regra do campo universitário. Talvez por isso o ensaio, como forma de apreensão da realidade, sobretudo na tradição latino-americana hispânica, tenha sobrevivido ao processo de formalização disciplinar. Pois é de sua natureza desrespeitar a formalidade dos limites estabelecidos.” Renato Ortiz

[2] Notar a apropriação do termo “latinoamericano” com forte conotação política, provavelmente nesse momento se lhe atribua o sentido antiimperialista que conhecemos.

lunes, 3 de noviembre de 2008

Para 20/11


Se alguém quiser ousar chamar isso de poema, fique à vontade. Ficarei lisonjeado... Eu considero apenas uma enxurrada de idéias que me vieram à cabeça uns anos atrás quando vi que na mesma data morreram Zumbi (há mais de 300 anos) e Franco (há 30). A relação que consegui fazer foi essa.


PS.: Relendo, só posso dizer que como poeta não passo de um historiador medíocre... :-( Ainda assim, ouso publicar.


************************************************************************


20 de novembro de 2005

(ao som de mundo livre s/a – a banda que junta Jacob do Bandolim com Noam Chomsky)

Paris arde, Recife é demolida,

El Alto espera,

Madri queima, Catalunha recorda


Durruti e Zumbi, hoje é nosso dia

Dandara e Pasionaria, hoje é nosso dia

Dia de comemorar as vitórias do povo

Dia de celebrar a resistência

Dia de lembrar que todos os tiranos passam

e que os fascistas "Não Passarão"


Franco apodreceu e é apenas uma incômoda nota de rodapé no lixo da história

Os ditadores brasileiros não colheram as glórias de sua “Redentora”

E os torturadores daquele período

Circulam feito ratos pela cidade, com medo da própria sombra

E ressentidos por não terem seu trabalho reconhecido

Quase todos eles

João Paulo II apodreceu e definhou ao vivo, via satélite

Pinochet apodrece e precisa se declarar demente

Saddam é prisioneiro de seus mestres

Rei Juan Carlos, Bush, Blair, Berlusconi, Chirac, Lula, Uribe esse é o seu futuro


Vocês têm que se esconder ou ser escondidos

Se desculpar ou que alguém peça desculpas por vocês

Pois sua memória é só ultraje

Nós não precisamos esconder os nossos, nem nos desculpar

Quem tem vergonha de dizer que ama o Che?


Apenas recolhemos os mortos (quando é possível)

E voltamos a lutar pelo novo mundo

Que eles tanto tentam sempre destruir


O Brasil de hoje é filho de Domingos Jorge Velho

A Espanha hoje é filha de Torquemada

O Brasil hoje é a cara de Castello Branco, Costa e Silva, Emílio Médici, Geisel

A Espanha hoje é a cara de Francisco Franco (por baixo do orgulho globalizado)


Lá e aqui a mediocridade reina

Com Telefônica e Dívida Externa,

O monarquista Real Madri e nosso futebol privatizado

Banco Santander e Banco do Brasil,

Repsol e Petrobras,

PP, PSOE, PT, PSDB,

Guarda Civil, PM...


Lorca nos deixou a vida, Franco deixou a vergonha

Drummond nos deixou a esperança, Golbery deixou o FMI

Neruda nos deixou seus versos, Pinochet deixou o genocídio

Sandino nos deixou a poesia, Somoza deixou a miséria

Os montoneros nos deixaram as Madres, Videla deixou os desaparecidos

José Martí nos deixou a revolução, Batista... quem foi Batista?

Bolívar nos deixou a unidade, Uribe traz a guerra e a submissão

Toussaint nos deixou a liberdade, liberdade que os nossos governantes querem negar ao Haiti


Criatividade, alegria, dignidade, paixão, solidariedade e vida estão submersas

Perdidas em algum lugar da memória

E no grito do sem-terra e no choro da sem-teto e na correria do camelô e na irreverência da estudante

E no ódio incendiário do imigrante e nas rugas de quem não abandonou a luta

E no desafio do jovem neto de anarquistas que hoje ocupa uma casa em Barcelona

Sempre há alguém que teima em recuperá-las

O Brasil dos cabanos ainda vai chegar

A Espanha de Andres Nin e do internacionalismo ilimitado ainda vai renascer


Memórias perdidas de quando fomos chilenos por uns dias


Foi lá pelos idos já longínquos de 2003 que o GEALC-UFF de tantas glórias realizou um belo ciclo de debates sobre o Chile da Unidade Popular. O evento não teve sessões lotadas, ao contrário um público minguado dividiu os espaços com os mosquistos do Gragoatá. Ainda assim, me lembro com carinho pelo esforço que fizemos, por ser um dos poucos (senão o único) evento no Brasil que lembrava os 30 anos do golpe no Chile e, principalmente, pela paixão com que os poucos que estivemos presentes naquela jornada de três dias descobríamos e debatíamos a experiência socialista da terra de Neruda, Mistral, Recabarren, Miguel Enriquez.

Vale ainda lembrar que Salvador Allende completaria cem anos em 2008, a mesma idade que Cartola. Em algum lugar eles certamente se encontraram e, como não existe o paraíso, provavelmente foi em alguma esquina de Nuestra América.


Clique para ver uma coleção de cartazes da Unidade Popular